Os homens que tinham medo da chuva

Havia numa sociedade desconhecida, a anos distante da nossa, uma velha lenda que dizia que a chuva era fatal. Quem saísse na rua quando ela se iniciasse teria uma morte certa.

Maria, menina jovem, com apenas 20 anos, nasceu nesse lugar e desde pequena acompanhava o medo e a crença generalizada que as pessoas tinham sobre esse fenômeno da natureza. Entretanto, sempre tivera curiosidade sobre tudo que a cercava, inclusive sobre todas as características da chuva. Seria ela doce, salgada? Ácida, amarga, azeda? Seria gelada, quente ou morna? Como poderia machucá-la? Através de sua força? E se ela fosse leve e ainda assim destruidora? Ou quem sabe, na verdade, só fosse como a água de seu chuveiro? Maria chegou a comentar sobre suas dúvidas com algumas pessoas que a cercavam, mas com o tempo desistira, depois de ser chamada de louca.

Eis que um dia conheceu Miguel, garoto simples, tão jovem quanto ela, cheio de sonhos e expectativas. E sentiu que ambos indentificavam-se. Dessa forma, queria saber se Miguel a acharia tão desnorteada e maluca como todos os outros que havia falado sobre a chuva. Talvez ele fosse mais um, talvez ele fosse único. Com um pouco de receio, mas decidida, resolveu perguntá-lo diretamente o que pensava sobre isso. Miguel baixou a cabeça, olhou pro lado e ficou mudo por alguns minutos. Olhou Maria e com coragem, resolveu dizê-la o que pensava. Disse então que todos os dias em que a chuva vinha, ele tinha vontade de sentí-la, não por ser um suicída ou ser um louco qualquer. Mas por não ter medo da morte e acreditar que a chuva só se tratava de algo molhado e prazeroso, em seu ponto de vista. Maria o olhou nos olhos e por um instante sorriu, mal conseguia conter aquela satisfação no peito. Ele não entendia seu sorriso, mas sentia algo bom no peito também.

Nesse momento ela o perguntou:
– Miguel, você poderia me encontrar mais tarde, embaixo da árvore do parque de Lótus? As seis horas, em ponto?

Ainda sem compreender, ele disse que poderia. As horas se passaram e sem desistência ambos se encontraram. Maria sabia que naquela noite haveria a chuva mais forte de todos os tempos, pelo menos foi o que ouvira em uma rádio da cidade. E ela estava disposta a acabar com suas dúvidas, se Miguel a acompanhasse.

Eis então que começou a chover e ele compreendeu de imediato. Juntos deram as mãos e se colocaram debaixo da chuva. E logo ali, sozinhos, riram, com toda a felicidade do mundo, pois descobriram que não se passava de água. Água forte e direta, com uma força que não os destruiu, mas apenas os fortificou. Já que unidos, desmantelaram seus medos, destruíram suas dúvidas e porque tinham guardado nas mãos o segredo mais belo de todos. Agora, sentiam no coração, a deliciosa sensação da realização de um sonho e sabiam que unidos seriam sempre melhores. Tão eles, tão felizes, renovados, que poderiam continuar sempre ganhando o mundo, juntos.
-gm

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